Investimento angolano em Portugal sobe em contraciclo

Nos últimos 2 anos, o investimento direto angolano em Portugal totalizou € 487 milhões, dos quais 258 milhões foram realizados em 2019, ano em que a economia angolana se contraiu pelo 4o ano consecutivo. De acordo com os dados recentemente disponibilizados pelo Banco de Portugal (BP), dos € 258 milhões aplicados no ano passado, € 200 milhões destinaram se ao sector dos serviços, incluindo € 32,4 milhões canalizados para as actividades financeiras. Em sentido contrário, e segundo o relatório Evolução da Economia dos PALOP e de Timor-Leste 2019-2020, divulgado em outubro último pelo BP, o investimento direto de Portugal em Angola atingiu € 37,1 milhões em 2018 e foi negativo em € 127,5 milhões, em 2019, com o maior desinvestimento a ter lugar no sector da construção, com menos € 109,7 milhões. João Luís Traça, Presidente da Câmara de Comércio e Indústria Portugal – Angola (CCIPA), defende que não é possível ler literalmente os números em causa, é preciso ter em conta que o conceito de investimento direto não abrange apenas o investimento de capital, podendo envolver “o reinvestimento de lucros ou aumentos de capital para as posições não serem diluídas”. Já sobre o desinvestimento de Portugal em Angola, verificado em 2019, o responsável da CCIPA recorda que o sector da construção no mercado angolano está muito dependente das obras públicas: “Estradas, pontes, hospitais, escolas, não são investimento privado, mas sim público, ou seja, do Estado, diretamente ou ao abrigo de linhas de financiamento que o Estado angolano celebra com financiadores internacionais. O programa de investimentos públicos (PIP), parte do Orçamento Geral do Estado (OGE), contempla verbas reduzidas para essas obras. Não há como fugir à situação: se há menos obras públicas, há menos investimento direto de Portugal em Angola”. No que concerne ao comércio de mercadorias, os dados do INE mostram que Angola, que já foi o 4o melhor cliente de Portugal, é, em 2020, o 9o, com as exportações a cair há 35 meses consecutivos, em todos os sectores exportadores e, particularmente, os do vestuário e do calçado, com quedas de 55,7% e de 54,2%, respetivamente. Ainda de acordo com os dados disponibilizados pelo INE, nos primeiros 8 meses de 2020 houve 3.469 empresas a exportar de Portugal para Angola, número que compara com 5.152 em 2019. Questionado sobre a queda das exportações para Angola, João Traça afirma que “não se antevê uma inversão” da tendência de queda: “A diversificação da economia angolana e o empenho colocado pelas autoridades angolanas na sua implementação e obtenção de resultados, a par da redução das reservas cambiais e da depreciação da moeda nacional, dificilmente serão um estímulo às importações por parte de Angola”, realça. No caso específico de Portugal, verifica-se também uma descida da quota de mercado: de acordo com uma análise recente do Gabinete de Estratégia e Estudos do Ministério da Economia, Portugal teve um peso de 12,9% nas importações angolanas, peso que compara com quotas de 13,3% e 16,3% nos 2 anos anteriores. Portugal tem vindo a ocupar o 1o lugar na lista dos principais fornecedores de mercadorias a Angola em alternância com a China desde 2003, mas, em 2019, desceu para 3o lugar, ultrapassado pela França, com uma quota de 13,8%, por força dos “acordos firmados entre Angola e empresas francesas para o fornecimento de refinados do petróleo”, dos quais o mercado angolano é deficitário (apesar de o país ser o 2o maior produtor africano de crude, a seguir à Nigéria). O Presidente da CCIPA destacou que a crise, “agora agravada pela pandemia”, está a ter “um forte impacto nas exportações portuguesas para Angola; nas viagens entre os dois países, seja por razões económicas, saúde ou de educação; no investimento direto de um país no outro”, com impacto em todos os sectores. Para João Luís Traça, o principal problema, “de natureza estrutural e não apenas conjuntural”, é “a incerteza sobre como será o mundo após o final da pandemia” e isso afeta a tomada de decisão por parte dos empresários. A longo prazo, o preço do petróleo será um fator fundamental a ter em conta.

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